A bruxa hoje e a necessidade de proteção

 Existe uma ilusão confortável sendo vendida: a de que vivemos em um país livre espiritualmente. Que cada um pode cultuar, praticar, invocar ou se conectar como quiser. No papel, isso é verdade. Na prática, é uma mentira mal disfarçada.

O Brasil nunca foi um território realmente livre para quem lida com o invisível. Sempre foi um jogo de tolerância controlada. Você pode existir… desde que não incomode. Desde que não cresça. Desde que não confronte.

E o cenário atual escancarou isso.

O que está acontecendo não é só intolerância religiosa. É disputa de território, de narrativa e de poder. E no meio disso, quem trabalha com magia (principalmente de raiz) virou alvo.

Nos últimos anos, a violência contra terreiros, praticantes e espaços espirituais cresceu de forma absurda. Não é exagero. É padrão. Casas invadidas, imagens destruídas, líderes ameaçados, gente sendo forçada a esconder quem é. E muitas vezes deixam uma bíblia no local, como assinatura.

Não é fé. É recado.

Esse movimento ganhou força junto com algo que muita gente ainda finge não ver: a fusão entre crime organizado e discurso neopentecostal. O tal “narcopentecostalismo” não é só bandido convertido. É estrutura. É estratégia.

Facções armadas adotando linguagem religiosa, símbolos bíblicos e uma moral seletiva pra legitimar controle. Muros com versículos, territórios “consagrados”, soldados de Deus com arma na mão e poder baseado no medo.

Isso não é conversão. É branding espiritual.

E aqui entra a contradição mais escancarada: o discurso que prega amor, vida e salvação sendo usado pra justificar perseguição, expulsão e apagamento de outras práticas. Principalmente as de matriz africana. Principalmente as que não se ajoelham.

Não é coincidência. É escolha.

A religião, nesse cenário, vira ferramenta de controle social. Cria uma narrativa simples: existe o “bem” e o “mal”. E adivinha quem vira o mal? Tudo que tem raiz, ancestralidade, força própria. Tudo que não pede permissão pra existir.

Enquanto isso, muitos desses líderes seguem movimentando dinheiro, poder e influência dentro do próprio crime. A fé entra como verniz moral. Como maquiagem pra algo que, na prática, nega tudo que diz defender.

E isso só cresceu porque ocupou espaço.

Onde o Estado não chegou, alguém chegou. Onde faltava apoio, alguém ofereceu. Onde tinha vazio, alguém preencheu. Isso é estratégia e funcionou.

Mas junto com isso veio a imposição. A tentativa de padronizar fé, apagar diferença e controlar território. E quando fé vira regra imposta, ela deixa de ser fé. Vira domínio.

O resultado é visível: comunidades pressionadas a abandonar suas práticas, símbolos proibidos, rituais silenciados, corpos vigiados.

Não por escolha. Por medo.

E enquanto isso acontece fora… tem um erro acontecendo dentro.

Muita gente da própria magia está quieta. Escondida. Fingindo que não é com ela.

Isso não é estratégia. Isso é recuo.

Em um mundo que adora julgar tudo que não entende, aprender a não se curvar à opinião alheia não é maturidade. É proteção espiritual.

E isso vale pra todo mundo: pai de santo, mãe de santo, tata, mameto, curandeiro, benzedeira. Quem lida com o invisível no Brasil já sentiu o peso do olhar torto.

Aqui, espiritualidade nunca foi totalmente aceita. Foi escondida, adaptada, disfarçada. Então desenvolver blindagem interna não é luxo. É sobrevivência.

E essa blindagem começa dentro.

No caminho espiritual, a primeira quebra é parar de viver pra caber no olhar dos outros.

Aceitar a própria natureza é o início. Cada caminho tem sua energia. Quem tenta se encaixar no que não é seu trava, enfraquece e transforma a própria espiritualidade em teatro.

E teatro não sustenta ataque.

A verdade é direta: quem trabalha com o sagrado precisa sustentar a própria verdade. Sem negociação.

Porque você vai ser questionado. Família, amigos, sociedade. Sempre tem alguém pronto pra dizer que é errado, exagero ou loucura.

Só que a maioria dessas opiniões vem de quem nunca viveu nada do que você vive.

Então não se importar não é arrogância. É posicionamento.

Quando você se aceita, a energia alinha. A intuição limpa. O trabalho flui.

Mas isso exige outra coisa que muita gente ignora: limite.

Dizer não é proteção espiritual. É estratégia.

Quem não aprende isso vira esgotado, sobrecarregado e facilmente manipulável, tanto por gente quanto por energia.

E aqui entra um ponto que pouca gente fala com coragem: você não veio pra salvar todo mundo.

Veio pra sustentar o seu caminho.

Quando você entende isso, cria um campo de proteção natural. Crítica bate e não entra. Opinião vem e não fixa.

E aí nasce a resiliência de verdade.

Porque sim, você vai ser testado. Vai ter ataque, dúvida, fase ruim. Vai ter momento que tudo trava.

Mas isso separa quem está firme de quem está só brincando de espiritualidade.

Só que tem algo ainda mais perigoso que ataque externo: a desunião interna.

Enquanto tem gente armada ocupando território com discurso religioso, enquanto práticas são perseguidas, os próprios magistas estão brigando entre si.

Quem é mais puro. Quem é mais tradicional. Quem faz “certo”.

Ego travestido de espiritualidade.

Isso não protege ninguém. Só enfraquece.

Pra quem quer apagar tudo isso, não importa se você é da bruxaria, quimbanda, umbanda, candomblé ou qualquer outra linha.

Você é a mesma coisa: o outro.

Então continuar brigando entre si é colaborar com o sistema que quer te apagar.

União aqui não é “ninguém solta a mão de ninguém”. É estratégia.

E junto com união, vem algo que muda o jogo de verdade: presença real.

Quem cresceu ocupando território não foi só pela fé. Foi pelo que entregava.

Apoio. Comida. Acolhimento. Rede.

Agora olha pra magia.

Quantos estão realmente presentes nas comunidades? Quantos estão ajudando de forma concreta? Quantos estão construindo algo além do próprio ritual fechado?

Poucos.

E enquanto isso não mudar, a narrativa continua fácil: demonizar quem não aparece fazendo o “bem” de forma visível.

Não adianta só dizer que não é o que falam.

Tem que mostrar.

Magia não é só ritual escondido. É ação no mundo. É impacto. É transformação real.

Quando você ajuda, constrói, sustenta. Você quebra narrativa.

Você desmonta o discurso de quem tenta te apagar.

Mas isso exige sair do confortável. Exige organização. Exige parar de agir como indivíduo isolado.

Porque sozinho você até se protege.

Mas junto… você muda o cenário.

E é aqui que tudo se encontra.

Blindagem interna sem presença externa vira invisibilidade.

Presença sem estrutura interna vira fragilidade.

Você precisa dos dois.

Sustentar quem você é por dentro… e ocupar espaço por fora.

Porque no jogo que está sendo jogado hoje no Brasil, espiritualidade não é só fé.

É poder.

E poder não fica vazio por muito tempo.

Ou você ocupa… ou alguém ocupa por você.

com amor, fernando stamires.

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E para consultas e trabalhos me chame no whatsapp 11918573770

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